A Cultura do Imediatismo

By 15 de Março de 2017Sem categoria

Por Gerson Ferreira

Em 1998, Nicholas Negroponte, chairman do MIT Media Lab escreveu em um artigo na Wired Magazine a seguinte frase: “Como o ar e a água para beber, ser digital será notado somente na ausência e não na presença”. Sim, ele previu a realidade de hoje 19 anos atrás. A tecnologia digital antes era um recurso, uma coisa do lado de fora das nossas vidas, mas hoje ela é o pano de fundo no qual estamos entrelaçados.

Entre tantas consequências que essa realidade provoca em nossas vidas, gostaria de citar três que tenho percebido e refletido sobre seu impacto nas nossas vidas e, principalmente, nos nossos relacionamentos. Vamos lá:

Ser o dono da verdade.

Há uma enorme diferença entre ter uma opinião sobre um tema e determinar uma “verdade absoluta” sobre o mesmo. A capacidade de ser coerente somado ao excesso de informação acessível por um click, transforma muitas pessoas em verdadeiros mestres. Chegam até a prever o que acontecerá no futuro, mas ao contrário do Nicholas Negroponte citado acima, erram feio. E se acertam, é por pura obra do acaso.

Defender a verdade sobre um tema é difícil porque sempre há um contexto e fatores influenciadores, quanto mais determinar o futuro. Se há algo maravilhoso no que estamos vivendo atualmente é justamente a diversidade de informações e opiniões. A riqueza está em conseguir fluir em meio as várias faces de um mesmo tema e aprender por meio dessa experiência.

Se há uma coisa chata é estar ao lado de alguém que sabe muito de tudo. Cuidado em prever o futuro. Se até os especialistas erram, imagine eu e você. Vou compartilhar um exemplo citado no livro Organizações Exponenciais, pag.26, onde os autores relatam algumas previsões furadas de renomadas consultorias.

Uma dessas citações diz que “no início da década de 80, a McKinsey & Company aconselhou a AT&T a não entrar no negócio de telefonia móvel, prevendo que haveria menos de um milhão de telefones celulares em uso em 2000. Na verdade, em 2000, havia 100 milhões de telefones celulares. McKinsey não só errou 99% em previsão, como a recomendação também impossibilitou a AT&T de se engajar em uma das maiores oportunidades de negócios dos tempos modernos”. Cuidado! Nossas verdades, mesmo sendo coerentes, podem estar erradas. Pondere, contextualize tudo e lembre-se que texto fora do contexto é pretexto para heresia.

Ser superficial em praticamente tudo.

Ser superficial em praticamente tudo é uma consequência sobre o que você acabou de ler. A tecnologia digital proporciona acesso instantâneo à um mundo de informações, dados e opiniões. Mas não temos tempo e nem mesmo capacidade para assimilar tudo. Isso nos provoca uma grande frustração e muitas vezes nos encontramos em uma busca árdua e infrutífera para encontrar tempo para absorver tudo.

Lendo uma entrevista do Peter Drucker obtive uma dica poderosa e entendi que também devemos fazer escolhas quando o assunto é informação. O entrevistador, ao perguntar ao pai da administração moderna, como ele fazia para entender em profundidade assuntos tão distintos, ele respondeu que todo ano escolhia três temas diferentes e passava a estudá-los em profundidade nos 12 meses seguintes.

Ao invés de convivermos com o sentimento de que sempre falta tempo para absorver o necessário, que tal trocarmos o volume pela qualidade de conhecimento adquirido. Não é fácil pela contínua tentação de absorver tudo, mas pense melhor sobre isso. É melhor pescar seu próprio peixe do que repassá-lo do jeito que lhe entregaram.

Ter dificuldade em interagir com outro ser humano.

Nossa capacidade de expressão corporal ficou limitada aos dedos. As pessoas estão tendo dificuldade em se expressar com os olhos e com o corpo já que estamos centralizando cada dia mais nossas comunicações por mensagens de texto. Estamos tão envolvidos com as telas que a postura de algumas pessoas está ficando arqueada por caminhar interagindo com o smartphone.

De acordo com a pesquisa Deloitte Mobile Consumer Survey 2016, 80% dos entrevistados admitem usar o smartphone enquanto estão no meio de uma conversa com amigos. Um amigo executivo de uma grande empresa compartilhou a dificuldade de um profissional da sua equipe, em deixar de responder as constantes mensagens particulares nos grupos do Whatsapp no período de trabalho. Por mais que tenha sido alertado e aconselhado, não conseguiu se desprender do aplicativo e acabou tendo que procurar outro emprego.

Outro exemplo sobre a influência do smartphone em nossas vidas, surgiu durante um workshop que realizei para profissionais de marketing. Um dos participantes compartilhou que algumas pessoas da sua equipe preferiam resolver os assuntos, mesmo que mais complexos, por mensagem de texto ao invés de pegar o telefone ou ir até o interlocutor pessoalmente para resolver a questão – isso gerava um tempo muito maior para encontrar a solução, ou seja, baixa produtividade e agilidade na solução de problemas.

Refletindo sobre as três consequências que a tecnologia tem provocado em nós, fica a pergunta:

Que tipo de ser humano queremos ser?

O fato é que estamos ligados no modo urgente o tempo todo. Tudo tem que ser rápido. A conexão tem que ser rápida, a comida tem que ser fast, os artigos devem ser curtos e os resultados tem que ser conquistados hoje, agora. Segundo Augusto Cury no livro Ansiedade – Como enfrentar o mal do século, “muitas pessoas conhecem muitos nas redes sociais, mas raramente conhecem alguém a fundo e, o que é pior, raramente conhecem a si mesmas”.

Se não nos conscientizarmos que precisamos exercitar não só os músculos e a mente, mas também as expressões, o contato pelo olhar, a maneira como gesticulamos e nos comunicamos e desacelerar, corremos o sério risco de nos tornarmos robóticos. Se muitos de nós, segundo Augusto Cury, não nos conhecemos e se estamos sendo superficiais demais, só nos resta tentar esconder isso assumindo o personagem do dono da verdade. Esta “persona” nada mais é do que uma máscara para esconder nossa deficiência em sermos originais, autênticos.

E nesse contexto, longe de querer decretar uma regra e sendo genérico, acredito que existam pessoas que assistem tudo sem se comprometer com nada, ou seja, procuram a segurança e conquistam a estagnação. Existem pessoas que desejam estar na frente o tempo todo e vão surfando as novas ondas sem saber para onde estão sendo levadas – até porque não há tempo para buscar respostas e o que importa é estar na onda, se jogar naquela que parece boa. E existem pessoas que possuem um sentido claro de realização e se movimentam para desenvolver competências, estratégias e transferir conhecimento para ações que efetivamente gerem resultado.

Esse último perfil compreende a importância do foco e reconhece que saber de tudo sem profundidade não sustenta suas ambições. São pessoas que desconsideram formações de final de semana que prometem transformar sua vida como em um passe de mágica. Esse perfil sabe o valor do conhecimento específico adquirido por meio do aprendizado sistemático, pela prática diária e pelo aperfeiçoamento no decorrer do tempo. Não há fantasia, a realidade é que se nós queremos ser reconhecidos temos que nos dedicar, aprender, sermos humilde e desaprender, ouvir as críticas, assimilá-las e absorver o que importa. Errar uma, duas, três ou quantas vezes for necessário sem perder de vista a visão de futuro.

A tecnologia digital nos envolveu em sua rede e provocou o nascimento da cultura do imediatismo. Muitas pessoas, independentemente da sua geração, umas mais outras menos, estão sendo impactadas por essa cultura superficial. Precisamos assimilar que sempre haverá pessoas mais e menos bem-sucedidas do que eu e você, pessoas mais sábias e menos sábias do que eu e você, pessoas com mais e menos bens materiais e recursos financeiros do que eu e você. Mas a capacidade de adquirir e aplicar conhecimento é igual para todos, o fato é que existe um preço para isso. Não existe gente incompetente. O que existe é acomodação, paralização, ausência de foco e embriaguez pela cultura do sucesso expresso. Não que esse tipo de sucesso não exista, mas o fato é que são raros e escassos.

Vivemos em uma época de transformações. E se você acha que isso está acontecendo do lado de fora da sua janela, fique esperto. Arrisco dizer que ou seremos transformadores ou seremos transformados sem ao menos entendermos como isso aconteceu. “Se você quiser vencer, precisa pensar de maneira diferenciada sobre suas habilidades e como usá-las da melhor forma possível” diz Sir Ken Robinson em seu livro Libertando o Poder Criativo. Ele diz também que “todas as pessoas têm uma imensa capacidade criativa, consequência natural da condição humana. O desafio está em desenvolver essa capacidade. A cultura da criatividade precisa envolver a todos e não apenas alguns eleitos”.

Talvez esteja na hora de resgatar o ser mais humano em detrimento do tecnológico. O que você acha de trocar a cultura do imediatismo pela da criatividade? Ser autêntico e negar os padrões que o mundo lhe impõe?

Quero convidá-lo a exercitar sua habilidade de criar, expressar, decidir, tendo como referencial o que lhe proporciona sentido de realização. Se tomar a decisão errada, seja flexível e resiliente. Não permita ser levado pela correnteza de informações, opiniões alheias e previsões que a tecnologia digital proporciona. Aprenda, ouça, pondere, seja humilde e não deixe a cultura do imediatismo influenciar você. Ao contrário, seja você o influenciador. Acredite. Ouse viver todo seu potencial.

 

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Gerson Ferreira – gestor da Bronze Branding, uma consultoria que nasceu para ajudar organizações e pessoas a sustentar relevância por meio da plenitude da identidade.

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